CFEp, congestão e fronteiras da insuficiência cardíaca no DEIC 2026
Não é sobre uma nova droga. O eixo científico do DEIC 2026 é mais desconfortável do que isso: a programação sugere, com uma persistência difícil de ignorar, que parte significativa dos pacientes tratados como insuficiência cardíaca pode não estar sendo adequadamente caracterizada — e que tratar melhor começa por reconhecer com mais precisão quem realmente se beneficia de cada intervenção.
A ICFEp ocupa esse congresso de uma forma que merece atenção. Não como tema de abertura ou encerramento, mas distribuída por sessões que abordam funil diagnóstico, fenotipagem, biomarcadores, ecocardiografia, obesidade e um crossfire explícito sobre excesso versus subdiagnóstico. Quando uma mesma condição é dissecada sob tantos ângulos dentro de uma única programação, o recado científico é direto: ainda existe incerteza substancial sobre quem tem a doença e quem apenas compartilha suas comorbidades. O confronto entre as posições de Manoel Fernandes Canesin e Luiz Claudio Danzmann não é retórico — simboliza uma especialidade que ainda não fechou o equilíbrio entre sensibilidade diagnóstica e precisão clínica.
A congestão ganhou status próprio. O programa não a trata como consequência da insuficiência cardíaca, mas como alvo terapêutico independente com métricas próprias. Acetazolamida, sódio urinário, iSGLT2 e CA-125 aparecem lado a lado em uma mesma atualização. Outra sessão coloca exame físico, biomarcadores, POCUS e monitorização invasiva na mesma arena para disputar o título de padrão-ouro na avaliação da resposta à descongestão. Essa arquitetura de programação sinaliza que a discussão migrou definitivamente do “qual diurético usar” para “como medir se o paciente respondeu”.
Os extremos clínicos deixaram a periferia. Choque cardiogênico, resistência diurética, síndrome cardiorrenal, hipercalemia e hipotensão congestiva aparecem como temas centrais, com perguntas práticas que qualquer plantonista de unidade coronariana enfrenta: quando iniciar suporte circulatório mecânico, quando interromper temporariamente a GDMT, quais critérios usar para alta hospitalar segura.
O sinal mais revelador da programação, porém, está na ampliação das bordas da própria síndrome. Fragilidade, genética, amiloidose, obesidade, cardio-oncologia, doença de Chagas e cuidados paliativos dividem espaço com as discussões clássicas de fração de ejeção e remodelamento. O resultado é uma visão menos centrada em classificações isoladas e mais orientada ao paciente cuja trajetória clínica raramente cabe em uma única categoria — e que exige diagnóstico refinado, estratificação contínua e decisões individualizadas a cada consulta.
Top 5 Palestrantes
Luís Eduardo Paim Rohde — Pesquisador com trajetória consolidada em insuficiência cardíaca e ensaios clínicos, com participação centrada no manejo terapêutico otimizado e nas estratégias de escalonamento em pacientes com IC. Sua produção científica posiciona suas contribuições no congresso como referência para quem toma decisões terapêuticas em contextos de alta complexidade.
Denilson Campos de Albuquerque — Um dos principais responsáveis pela construção de registros multicêntricos de IC no Brasil, com papel central no registro BREATHE. Sua atuação no DEIC 2026 ancora o debate internacional à epidemiologia e às particularidades do paciente descompensado no cenário nacional — uma perspectiva que os dados europeus e norte-americanos não fornecem.
Fabiana Goulart Marcondes Braga — Especialista com contribuição relevante em trials de impacto e nas diretrizes de tratamento para IC estável. Sua presença no congresso é particularmente pertinente em um momento em que a incorporação de novas terapias à prática assistencial exige rigor metodológico e conhecimento atualizado das evidências disponíveis.
Evandro Tinoco Mesquita — Referência no manejo de fenótipos complexos de IC, incluindo caquexia cardíaca e suas implicações para qualidade de vida e prognóstico. Sua atuação no congresso contribui para um debate que a programação já sinalizou como prioritário: entender a insuficiência cardíaca além da fração de ejeção e além dos desfechos tradicionais.
Nadine Clausell — Pesquisadora com extensa produção em pesquisa básica e translacional em insuficiência cardíaca, com papel reconhecido na formação de novas lideranças acadêmicas na área. Em um congresso que dedica espaço explícito ao desenvolvimento científico de jovens cardiologistas, sua participação tem valor que vai além da atualização clínica.
NR: (1) Esta seleção foi elaborada com base na análise da programação científica do DEIC 2026 e reflete critérios editoriais próprios — não uma hierarquia oficial do congresso. A lista não é exaustiva: outros profissionais presentes têm trajetória e produção que os credenciariam igualmente a qualquer um desses lugares.
(2) Conteúdo atualizado em 8 de junho de 2026.