Glaucoma em 2026: SLT de primeira linha, MIGS real e OCT além do semáforo
O 88º Congresso da Sociedade Brasileira de Oftalmologia retorna ao Rio de Janeiro — cidade-sede da instituição há 103 anos —, consolidando o espaço onde condutas se formam, se questionam e se reformulam. Não é um congresso que repete o que as diretrizes já dizem. É onde as diretrizes são contestadas em público. O programa científico de alto nível reúne 15 convidados de Londres, Paris, Roma, Pavia, Lugano, Lisboa, Porto e Buenos Aires, e certificação online disponível por até seis meses após o evento.
A sessão “Hot Topics em Glaucoma” com coordenação de Remo Susanna Jr., Heloisa Giacometti e Adroaldo Costa Filho começa onde a maioria dos cursos termina. A pergunta “SLT como primeira linha” não é retórica: há evidência de custo-efetividade e dados de adesão que mudam o algoritmo antes mesmo de qualquer colírio. Guilherme Barroso Guedes apresenta as evidências com a frieza de quem já fez a conta. MIGS e MIBS chegam ao escrutínio real — o que ficou, o que saiu, o que funciona fora do marketing. Camila Zangalli desfaz o conforto dos semáforos vermelhos, amarelos e verdes do OCT: limitações, artefatos e falsa progressão são o conteúdo que o sistema de laudos esconde. A progressão estrutural sem progressão funcional — e vice-versa — recebe resposta prática de quando e como intervir. Daniel Fulgencio de Moura fecha com 24-2C, 10-2 e novos algoritmos de IA no campo visual: quando mudar o protocolo e quais as tendências.
A sessão interativa de glaucoma em Ipanema vai além. São casos reais com PIO normal e progressão central em paciente com síndrome de Raynaud, glaucoma neovascular em olho único com PIO de 36 mmHg, gestante no 2º trimestre com glaucoma leve após falha do SLT. A pergunta que organiza cada caso não é “qual o diagnóstico” — é “o que você faz agora, com esse paciente, nessa condição específica”.
O bloco “Ponto e Contraponto” do período da tarde em Ipanema radicaliza ainda mais: casos idênticos, dois especialistas, condutas opostas. FACO + GATT versus FACO + TREC. iStent + LIO multifocal versus goniotomia + monovisão. Biomecânica corneana pós-LASIK míope com CFN limítrofe: considera ou não considera? As duas respostas são apresentadas com igual credibilidade. O médico escolhe.
Simpósio Internacional de Catarata e Refrativa: o que Tjebo Heeren e Manuel Nicoli trazem de Londres e Buenos Aires
Matteo Piovella (Pavia) e Luca Gualdi (Roma) entram pela manhã. Paul Bernhard Henrich (Lugano) apresenta dados sobre estabilidade da rima de capsulorrexe após capsulotomia manual versus femtossegundo — dado com impacto direto em casos de alta ametropia. Guido Bregliano (Buenos Aires) discute explante de LIO em cenários complexos, que é exatamente onde o cirurgião fica sozinho na sala sem protocolo claro. Tjebo Heeren (Londres) traz o Bayesian Hierarchical Model para risco de ruptura de cápsula posterior — modelo de grande coorte que começa a mudar o consentimento informado em alguns centros europeus.
Manuel Nicoli fecha com miopia e cirurgia de catarata, equação que cresce na medida em que a epidemia míope envelhece. No período da tarde, Ana Rodriguez (Londres) apresenta dados do estudo de história natural CRB1 repensando os testes funcionais em doenças retinianas hereditárias. Amandio Rocha Sousa (Porto) e Mário Ornelas (Lisboa) discutem afacia sem suporte capsular e a lente Carlevale com experiência cirúrgica real, não revisão de literatura.
Retina: faricimabe, vasculopatia coroideana polipoidal e doenças mitocondriais
O bloco de segmento posterior da manhã entrega casos sem diagnóstico fechado — o formato deliberadamente incompleto que força raciocínio diferencial em vez de reconhecimento de padrão. O período da tarde em Maracanã II tem densidade técnica maior: Eduardo Amorim Novais abre com biomarcadores de OCT além da espessura, Carlos Eduardo Veloso entra em doenças aneurismáticas da retina, e o linfoma intraocular recebe uma apresentação com título honesto — “tudo que você sempre quis saber e tinha vergonha”. Marcus Montello França desmistifica doenças retinianas mitocondriais. Thiago Cabral discute espectro da paquicoróide. Raul Vianna fecha com diagnósticos diferenciais das cavitações retinianas foveais. O módulo de Diabetes e Olho é completo: angio-OCT (Andre Romano), telemedicina (Fernando Malerbi), IA na retinopatia diabética (Andre Maia de Carvalho), novos antiangiogênicos (Fernando Penha) e o algoritmo pessoal de Caio Regatieri para edema macular diabético.
Tumores oculares: melanoma uveal, braquiterapia versus enucleação e retinoblastoma
Rubens Belfort Mattos Neto coordena o bloco de tumores da tarde com a questão que define condutas em 2026: braquiterapia versus enucleação no melanoma uveal. Clarissa Mattosinho atualiza retinoblastoma em diagnóstico e tratamento. Monique Mangeon entra com ultrassom nos tumores de segmento posterior — ferramenta subutilizada na estratificação de lesões pigmentadas. A manhã anterior com Patrícia Araujo cobriu as bases: NOSE (neoplasia escamosa de superfície ocular), PAM versus melanoma conjuntival, lesões linfoproliferativas e OCT de segmento anterior em oncologia ocular. Biópsia incisional versus exérese completa tem princípios cirúrgicos definidos — e Aluisio Gameiro apresenta os critérios sem ambiguidade.
Catarata desafiadora: surpresas refracionais, ceratocone e técnicas de fixação de LIO
O módulo de casos desafiadores coordenado por Mauricio Barros e Rafael Garcia cobre o que os livros não cobrem: catarata pós-Presbyond, olhos extremos com altas ametropias, troca de LIO com transplante de córnea simultâneo, íris artificial com glaucoma. Ricardo Guedes apresenta catarata e glaucoma, Bruno Trindade entra com ceratocone e técnicas de fixação, Vitor Cerqueira fecha com trauma. Cada caso tem discussão multidisciplinar com dois debatedores — não para gerar consenso, mas para explicitar divergência razoável entre especialistas experientes.
Neuro-oftalmologia: papiledema versus pseudo, NOIA versus neurite e anisocoria
Mário Ribeiro Monteiro coordena o bloco de diagnósticos diferenciais em neuro-oftalmologia com a precisão de quem sabe que esse é o território onde o generalista mais erra. Edema versus pseudo-edema de papila. Glaucoma versus neuropatias ópticas. Retinopatias versus neuropatias ópticas. Neurite versus NOIA. Paralisias oculomotoras versus miastenia. Diagnóstico diferencial das anisocorias. Cada par é apresentado com o critério discriminatório que o olho treinado usa — e que raramente aparece nos textos básicos.
Oftalmopediatria: comprimento axial, controle da miopia e deficiência visual cortical
Cláudia Costa Ferreira (Porto) questiona se o comprimento axial é suficiente para monitorar controle da miopia — pergunta que redefine protocolos de seguimento. Luisa Hopker traz atualização cirúrgica em estrabismo com vídeos. Marcia Tabuse discute deficiência visual cortical, área raramente contemplada em congressos de adultos. O módulo da SBOP pela manhã trabalha casos com formatos clínicos reais: ambliopia com alta hipermetropia unilateral, ceratocone em criança alérgica, ROP e distrofia de retina pediátrica.
Copa ABLAO e SBO Jovem: a geração que vai definir próximas diretrizes
A Copa ABLAO reúne estudantes de medicina de ligas acadêmicas de oftalmologia em competição estruturada em três fases — classificatória teórica, quiz interativo e resolução de casos clínicos. O SBO Jovem apresenta 24 casos em dois blocos que cobrem glaucoma, córnea, segmento anterior, refrativa, oculoplástica, retina clínica, retina cirúrgica, úvea, tumores e neuro-oftalmologia. Não é sessão decorativa: os discutidores são especialistas com publicações no tema.
NR: Conteúdo atualizado em 20 de abril de 2026.
Explorar mais: Este evento faz parte do nosso acervo de Congressos de Oftalmologia e do calendário de eventos médicos em RJ.
