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CBP 2026: Psiquiatria entre cérebro e complexidade (São Paulo/SP)

Trabalhos Científicos

  • Data Limite: 31/05/2026 às 23:59:00
  • Data do Resultado: 15/07/2026
  • Idioma: Português
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Já está confirmado: o CBP 2026: Psiquiatria entre cérebro e complexidade (São Paulo/SP) acontecerá em 2026. As atividades terão início às 08h, sediadas no Centro de Convenções - Distrito Anhembi, em São Paulo/SP.


7 min de leitura

Autismo, neuromodulação e esquizofrenia moldam agenda do CBP 2026

Durante boa parte das últimas décadas, a psiquiatria oscilou entre extremos. Em alguns momentos, tudo parecia neuroquímica. Em outros, tudo parecia psicossocial. Aqui surge algo diferente. A convivência entre neurobiologia do transtorno de personalidade borderline, psicofarmacologia, psicoterapia estruturada para traumas precoces, espiritualidade, neuromodulação e neurodesenvolvimento sugere uma especialidade menos interessada em disputas ideológicas e mais preocupada com aquilo que efetivamente funciona diante do paciente.

O transtorno de personalidade borderline ocupa um espaço particularmente revelador no CBP 2026. A proposta de discutir o tema da neurobiologia à psicofarmacologia mostra uma tentativa de retirar o diagnóstico da caricatura clínica que frequentemente o acompanha. O mesmo raciocínio aparece na sessão dedicada à autolesão não suicida. Em vez de tratar o comportamento apenas como sintoma associado a outros transtornos, a programação o coloca como objeto clínico próprio, sinalizando uma preocupação crescente com fenômenos que costumam gerar grande sofrimento e baixa segurança terapêutica.

O autismo na vida adulta talvez represente uma das discussões mais contemporâneas de todo o evento. A escolha de associar diagnóstico tardio, overdiagnosis e risco suicida é especialmente significativa. Muitos congressos discutem autismo focando exclusivamente em identificação precoce. Aqui o debate parece deslocar-se para as consequências clínicas e sociais da expansão diagnóstica observada nos últimos anos. A presença explícita do termo overdiagnosis sugere uma disposição rara de discutir excessos e limitações, não apenas avanços.

A neuromodulação aparece repetidamente ao longo da programação. Isso costuma ser um indicador importante. Quando uma tecnologia deixa de ocupar uma única sessão e passa a atravessar diferentes espaços científicos, significa que a comunidade está tentando definir seu papel prático. O congresso dedica atenção tanto à neuromodulação não invasiva quanto ao seu potencial transdiagnóstico, refletindo um movimento que busca ultrapassar fronteiras tradicionais entre depressão, transtornos de ansiedade, esquizofrenia e outras condições psiquiátricas.

A participação de Frank Padberg reforça essa direção ao discutir o futuro transdiagnóstico da neuromodulação. Já André Brunoni aparece associado ao uso clínico dessas ferramentas em transtornos mentais. O resultado é uma programação que não apresenta a neuromodulação como curiosidade tecnológica, mas como possível componente da prática assistencial futura.

A esquizofrenia surge em outro ponto de inflexão. A conferência sobre tratamentos além do bloqueio dopaminérgico pós-sináptico talvez seja uma das formulações mais provocativas de toda a agenda científica. Durante décadas, a maior parte das estratégias farmacológicas orbitou em torno desse mesmo mecanismo. Quando uma sessão inteira é construída para discutir o que existe além dele, o congresso está reconhecendo implicitamente os limites do paradigma dominante.

A doença de Alzheimer aparece inserida em um contexto semelhante. O tema não é apresentado como simples atualização terapêutica. Surge ao lado de discussões sobre neurobiologia, neurodesenvolvimento e novos modelos de compreensão dos transtornos mentais. Isso sugere uma psiquiatria cada vez mais conectada às neurociências e menos confinada às classificações diagnósticas tradicionais.

A depressão também é tratada sob duas perspectivas complementares. De um lado, a depressão resistente. De outro, a depressão pós-parto. A combinação é interessante porque evita reduzir o transtorno depressivo a uma entidade homogênea. A programação parece reconhecer que mecanismos, riscos e estratégias terapêuticas podem variar profundamente dependendo do contexto clínico.

Os transtornos alimentares recebem uma abordagem igualmente madura. A escolha do subtítulo “para além da ingestão” desloca a discussão para trauma, neurobiologia e identidade. Isso pode parecer apenas uma mudança de linguagem, mas reflete uma transformação importante. O foco deixa de estar exclusivamente no comportamento alimentar observável e passa a incluir processos psicológicos e biológicos que frequentemente sustentam o quadro clínico.

A presença de Alexander Moreira-Almeida e Bruno Mosqueiro em uma sessão dedicada à abordagem bio-psico-sócio-espiritual merece atenção específica. Não porque espiritualidade seja novidade na psiquiatria, mas porque sua inclusão explícita indica que parte da especialidade está tentando incorporar dimensões existenciais sem abandonar rigor científico. O simples fato de esse debate ocupar espaço formal na programação mostra que o tema deixou de ser periférico.

Os convidados internacionais ajudam a identificar as prioridades reais do congresso. Christoph Correll, Frank Padberg, José Luis Carrasco Perera e Juan Carlos Pascual Mateos não aparecem associados a temas dispersos. Eles estão vinculados justamente aos assuntos que atravessam toda a programação: esquizofrenia, neuromodulação, personalidade borderline e inovação terapêutica.

O resultado final é uma psiquiatria menos preocupada em defender escolas teóricas e mais interessada em integrar níveis diferentes de explicação. Neurotransmissores continuam importantes. Trauma continua importante. Psicoterapia continua importante. Neuromodulação continua avançando. O congresso parece partir da premissa de que nenhuma dessas peças, isoladamente, é suficiente para explicar a complexidade dos transtornos mentais contemporâneos.

Alguns palestrantes do evento

  • Alexander Moreira-Almeida (MG): Professor Titular da UFMG, é uma das maiores autoridades mundiais na interface entre espiritualidade e saúde mental. Sua produção acadêmica é fundamental para a discussão clínica sobre fatores existenciais e religiosos no tratamento psiquiátrico, trazendo um rigor científico necessário para temas frequentemente debatidos de forma superficial.

  • André Brunoni (EUA): Com uma carreira de grande impacto internacional, Brunoni é referência em neuromodulação e abordagens biológicas inovadoras no tratamento de transtornos psiquiátricos. Sua presença é indispensável para atualizar o corpo clínico sobre as evidências mais recentes da estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) e outras terapias intervencionistas.

  • Hermano Tavares (SP): Professor Associado e Livre-Docente, possui papel central na investigação e tratamento de transtornos do controle de impulsos e dependências comportamentais (como o jogo patológico). Sua expertise é vital em um momento onde as adições comportamentais crescem exponencialmente, exigindo protocolos de manejo bem estabelecidos.

  • Francisco Assumpção (SP): Como Professor Livre-Docente, é um nome seminal na psiquiatria da infância e adolescência no Brasil. Sua longa trajetória de dedicação ao neurodesenvolvimento e ao autismo o coloca como uma referência ética e técnica para qualquer debate sobre o cuidado de crianças e jovens, áreas que demandam alta especialização e sensibilidade clínica.

  • José Carlos Appolinario (RJ): Coordenador do GOTA (Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares), Appolinario é essencial para a compreensão da interface entre psiquiatria e metabologia. Sua liderança em ensaios clínicos e diretrizes para o manejo de transtornos alimentares e obesidade é um pilar para a psiquiatria moderna, que busca cada vez mais a integração sistêmica com a saúde física.

    NR: (1) Esta seleção foi elaborada com base na análise da programação científica do CBP 2026 e reflete critérios editoriais próprios, com foco em pesquisadores com  atuação simultânea na pesquisa e na prática clínica. A lista não é exaustiva — outros profissionais presentes no congresso teriam mérito equivalente para integrar qualquer painel científico internacional. (2) Conteúdo atualizado em 12 de junho de 2026.

 

NR: Nossa equipe analisou a programação científica do CBP 2026: Psiquiatria entre cérebro e complexidade (São Paulo/SP) e selecionou os eixos que definem o futuro da especialidade. Esta seleção reflete uma perspectiva focada em pesquisadores com forte trânsito entre a bancada de laboratório e a prática clínica. Vale ressaltar que a lista fornecida é composta por nomes de altíssimo calibre, e outros profissionais presentes também teriam mérito absoluto para compor um painel de qualquer congresso internacional de alto nível.

Congresso debate neuromodulação psicofarmacologia saúde mental e desafios clínicos emergentes da prática psiquiátrica.
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