Já está confirmado: o Infecto Rio 2026: Atualizações em Infectologia Clínica Avançada (Rio de Janeiro/RJ) acontecerá em 2026. As atividades terão início às 10H, sediadas no Windsor Marapendi Hotel, em Rio de Janeiro/RJ.
Infecto Rio 2026: Resistência, arboviroses e HIV dominam agenda prática
A programação oferece um retrato bastante honesto da infectologia contemporânea. O que chama atenção não é a presença de temas tradicionais como tuberculose, HIV ou arboviroses. É a quantidade de sessões dedicadas a falhas do sistema de resposta: resistência antimicrobiana, desinformação, vigilância epidemiológica, stewardship, surtos hospitalares e dificuldades diagnósticas. Quando um congresso concentra tantas horas nesses assuntos, está implicitamente admitindo que o maior desafio já não é identificar o patógeno, mas decidir corretamente o que fazer depois.
A mesa sobre vacinas ilustra bem essa mudança. Durante muitos anos, discussões vacinais giravam principalmente em torno de calendários e cobertura. Aqui, a conversa foi organizada ao redor de ameaças. Arboviroses, influenza com potencial pandêmico, resistência antimicrobiana e desinformação aparecem lado a lado. Não é uma coincidência editorial. A programação sugere uma visão mais ampla de vacina como ferramenta estratégica de segurança sanitária, não apenas como instrumento de prevenção individual.
A tuberculose ocupa outro espaço revelador. Em vez de concentrar atenção exclusivamente em novos tratamentos, a agenda distribui o problema entre circulação de cepas, transmissão subclínica, resistência e micobactérias associadas a procedimentos estéticos. Essa escolha é interessante porque desloca o foco da doença clássica para as zonas cinzentas que costumam desafiar o clínico. A inclusão da transmissão silenciosa como tema específico sugere preocupação com uma etapa do controle epidemiológico frequentemente menos visível que os casos já diagnosticados.
Poucos blocos parecem tão alinhados às tensões atuais da prática hospitalar quanto os dedicados à resistência antimicrobiana. A sequência formada pela conferência sobre falha terapêutica no paciente grave, os simpósios focados em bacilos gram-negativos multirresistentes e a mesa “Stewardship 360°” praticamente constrói uma narrativa única. Primeiro surge o fracasso clínico. Depois aparecem as limitações terapêuticas. Por fim, entram cultura institucional, indicadores, diagnóstico rápido e inteligência artificial como possíveis respostas.
A presença da metagenômica, do stewardship diagnóstico e dos bacteriófagos na mesma mesa merece atenção. Não porque representem tecnologias necessariamente prontas para adoção ampla, mas porque revelam uma infectologia cada vez mais interessada em precisão. Há alguns anos, esses temas ocupariam sessões periféricas. Agora aparecem agrupados como eixo central de inovação. Isso diz tanto sobre a maturidade dessas ferramentas quanto sobre a insatisfação crescente com abordagens diagnósticas e terapêuticas convencionais.
O programa de neuroinfecção foge da armadilha de discutir apenas agentes raros. Meningites bacterianas, neurotuberculose, arboviroses e infecção em pessoas vivendo com HIV formam um conjunto de alta relevância assistencial. É uma escolha pragmática. A agenda privilegia cenários que efetivamente chegam aos hospitais brasileiros, em vez de transformar a sessão em uma coleção de casos exóticos.
O HIV aparece em uma posição curiosa. Durante décadas foi o eixo dominante dos grandes encontros de infectologia. Aqui, divide protagonismo com resistência antimicrobiana e doenças emergentes. Isso não significa perda de relevância. Significa maturidade. A discussão sobre TARV moderna, envelhecimento, doença metabólica, hormônios para afirmação de gênero, PrEP de longa duração e perspectivas de cura mostra uma área que já ultrapassou a fase do controle virológico isolado e passou a lidar com complexidade clínica, social e demográfica.
As mudanças climáticas atravessam o programa de maneira mais profunda do que parece à primeira leitura. Oropouche, febre amarela, zoonoses, arenaviroses, melioidose e acidentes por animais peçonhentos aparecem distribuídos em diferentes mesas. O recado implícito é claro: a infectologia brasileira está sendo obrigada a revisar seus mapas mentais. Doenças antes consideradas regionais ou periféricas passam a ocupar espaços mais centrais na discussão científica.
O bloco sobre pacientes imunocomprometidos não HIV merece destaque por refletir uma transformação silenciosa dos hospitais. Anticorpos bioespecíficos, CAR-T, transplantes complexos e vigilância de patógenos multirresistentes apontam para uma população crescente que desafia classificações tradicionais de risco infeccioso. O infectologista moderno encontra cada vez menos pacientes imunocompetentes e cada vez mais cenários de imunidade modificada por terapias avançadas.
Uma das escolhas mais inteligentes da programação está fora dos temas biomédicos clássicos. A discussão sobre desinformação durante crises sanitárias reconhece um problema que a pandemia tornou impossível ignorar. Nenhuma estratégia vacinal, diagnóstico inovador ou antimicrobiano de última geração consegue produzir impacto populacional quando a comunicação falha. O fato de esse tema aparecer ao lado de ameaças infecciosas concretas mostra que parte da comunidade científica passou a enxergá-lo como risco operacional real.
A sessão sobre sífilis construída a partir de uma leitura dramática de Nelson Rodrigues destoa completamente do restante da programação. Justamente por isso chama atenção. Em um congresso dominado por resistência microbiana, vigilância e tecnologia, reservar espaço para arte e educação sugere a percepção de que comportamento humano continua sendo variável crítica no controle das infecções. É um contraste raro e, talvez por isso mesmo, um dos momentos mais interessantes do programa.
O saldo geral aponta para uma infectologia menos fascinada pela descoberta do próximo microrganismo e mais preocupada com execução. Como diagnosticar melhor, tratar melhor, comunicar melhor, vigiar melhor e implementar melhor. Pode parecer menos glamouroso do que anunciar uma grande revolução terapêutica. Mas é exatamente esse tipo de agenda que costuma produzir impacto clínico real.
Top 5 Palestrantes
- André Kalil: Referência mundial em pesquisa clínica e ensaios de alto impacto (ex: COVID-19, Ebola). Sua experiência em centros de excelência nos EUA traz uma visão global e baseada em evidências de ponta.
- Margareth Dalcolmo: Principal autoridade em tuberculose e doenças respiratórias no Brasil. Sua atuação pública e científica, aliada à vasta produção acadêmica, confere peso institucional e clínico inigualável.
- Beatriz Grinsztejn: Líder global em pesquisa sobre HIV/AIDS e infecções oportunistas. Suas contribuições em coortes de pacientes e estudos de implementação são fundamentais para as diretrizes mundiais da OMS.
- Estevão Portela Nunes: Referência em gestão clínica e pesquisa em doenças infecciosas emergentes. Sua atuação no Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz) o coloca no epicentro da tomada de decisão e ciência clínica aplicada.
- Ricardo Sobhie Diaz: Um dos maiores nomes da virologia brasileira. Seu trabalho em terapia antirretroviral e estudos avançados sobre reservatórios virais é de extrema relevância acadêmica e fundamental para o debate sobre cura e manejo do HIV.
R: (1) Esta seleção foi elaborada com base na análise da programação científica do CBC/WCC 2026 e reflete critérios editoriais próprios, com foco em pesquisadores com atuação simultânea na pesquisa e na prática clínica. A lista não é exaustiva — outros profissionais presentes no congresso teriam mérito equivalente para integrar qualquer painel científico internacional, como Isabella Ballalai (referência em imunizações) e Valéria Rolla (pesquisadora em micobacterioses).
Explorar mais: Este evento faz parte do nosso acervo de Congressos de Infectologia e do calendário de eventos médicos em RJ.
NR: Nossa equipe analisou a programação científica do Infecto Rio 2026: Atualizações em Infectologia Clínica Avançada (Rio de Janeiro/RJ) e selecionou os eixos que definem o futuro da especialidade. Esta seleção reflete uma perspectiva focada em pesquisadores com forte trânsito entre a bancada de laboratório e a prática clínica. Vale ressaltar que a lista fornecida é composta por nomes de altíssimo calibre, e outros profissionais presentes também teriam mérito absoluto para compor um painel de qualquer congresso internacional de alto nível.
